Feeds:
Posts
Comentários

Futebol e elegância


Sabe, filho, futebol é arte. Você joga bem, dá uns passos amigos e já fez gols sensacionais. E tem gente acreditando que o que você tem de mais bonito é completamente inútil no futebol: a educação, o respeito aos mais velhos, a obediência ao professor. Esse é o problema do futebol: a tônica é a malandragem, a mentira, a dissimulação. Rolar no chão fingindo uma dor, uma falta que não aconteceu, e se puder, fazer gol de mão.

Falo uma coisa, filho. Esportes, existem vários. Um vai dar certo. Só não sei qual. Deixo para você essa escolha.

Anúncios

Tolerância Zero


Nem ouse seguir o exemplo deste anjo de candura, filho do prefeito de Nova York. Até hoje não entendo como o criador do Tolerância Zero aguentou esse capeta atazanando a posse do pai. E coloco a coisa em duas versões, a original e a do Chris Farley, aquele comediante de quem eu já falei. Controla o riso, filho.

 


Eu e você sempre gostamos de bombeiros. Já é tradição nossa: no seu aniversário é de lei visitar um Corpo de Bombeiros, subir nos caminhões e cumprimentar aqueles que tanto ajudam e salvam as pessoas.  É bonito ver o quanto você gosta e respeita os bombeiros. Eles também te adoram – gente boa sempre se reconhece. Os bombeiros são uns amores: amigos, solícitos, atenciosos.  Heróis que enfrentam tiros, fogo e perigo para salvar gente em risco. Faltam os cães de resgate. Ainda estou te devendo uma visita ao canil dos Bombeiros, mas eu chego lá.

Dá uma olhada nesse senhor, filho. Esse moço é o Frade Mike Judge, o capelão do Corpo de Bombeiro da Polícia de Nova York, e saiu correndo para ajudar as pessoas quando a primeira Torre Gêmea foi atingida. Foi para o céu trabalhando ( garanto, foi direto, gente fina que era). Como ele, tantos fazem isso. Bombeiros, médicos, policiais, militares, juízes, são caras altamente injustiçados. Ganham mal, dormem pouco, trabalham feito cachorros, sofrem demais por escolherem a honestidade e o trabalho sério, sem reclamar de nada – igual cachorro. 

Outro dia você disparou que não quer ser médico, porque “médico trabalha de noite e nunca vê o filho”. É verdade, filho, mas se for a sua vocação, siga sem medo. Há tanta beleza em querer mudar o mundo. Vocação e idealismo só tem quem tem caráter, filho. A coisa mais bonita é quando alguém enfrenta seus medos para ajudar os seus semelhantes. Essas pessoas merecem nossos aplausos, nosso respeito, nosso carinho. Não se esqueça, filho. Gente assim merece continência diária. E seja o que você quiser na vida. Gente fina você já é.

A regra número 1


Onze de setembro de 2001. O mundo era um lugar mais legal antes desse dia. Os aeroportos eram lugares menos chatos, as pessoas desconfiavam menos umas das outras, ainda que anos de trabalho em empresas americanas houvessem me ensinado muito em termos de paranóia.  Eu não fui trabalhar naquele dia, nem sei o porquê. Estava arrumando a casa, a Angra no sofá, a televisão ligada, quando vi o primeiro avião atingir a Torre Norte do World Trade Center, em Nova York. Até aí, normal, embora triste. Veio o segundo, ainda mais destruidor, bem no meio da outra Torre Gêmea. E outro em cima do Pentágono, o último em direção à Casa Branca que foi derrubado antes do seu destino cruel. Foi aí que eu soube, amores. A democracia e as liberdades individuais seriam para sempre sacrificadas, em nome da segurança.

Eu nunca tive muita vontade de conhecer os Estados Unidos (ficar quatro horas sentada numa cadeira do aeroporto, sem direito a levantar nem para fazer xixi não torna um país mais popular para ninguém), mas o terrorismo não é resposta a nenhum problema que qualquer um tenha, por mais grave que seja. Os Estados Unidos nunca mais serão os mesmos, para o bem e para o mal. Viraram uma nação desconfiada. E como me ensinou o saudoso professor Maurício Henrique, é a regra número um do mundo: só ameaça quem tem medo. E o mundo é um lugar cheio de medo, amores. Vão aprendendo. Vão aprendendo.


“Eu deveria ter conhecido (..) 20 anos, 10 anos atrás para ter cuidado dele. (…) sempre foi uma pessoa muito solitária, apesar de conhecido como um grande jogador. (…) Ele precisa de amor e por isso dá extrema importância ao que o povo fala sobre ele. Eu abri mão de milhões de coisas na vida para me dedicar inteiramente a ele”. (Kátia Bagnarelli, mulher de Sócrates, ex-jogador e médico internado com cirrose hepática)

Parâmetros


Agora eu te entendo. Quando dá alguma coisa errada no trabalho (e acredite, sempre dá), eu penso em você, no que você sente quando você erra no seu trabalho. Mas o resultado do meu erro é muito diferente do seu. Porque as pessoas podem perder oportunidades, bens, a liberdade, no máximo. E no seu caso, perdem a vida. Parâmetros bem diferentes, sem dúvida. E isso também torna você um alguém diferente – para bem e para o mal.

 

Carniça


Gostava dele. Era charmoso, inteligente, e um grande homem. Sérgio Vieira de Mello era uma pessoa que tentou trazer a paz a vários lugares do mundo. Ajudou a pacificar o Timor Leste, fez de tudo para acabar a guerra na Bósnia, e corajosamente morreu trabalhando no Iraque. Ele tinha uma namorada. Carolina Larriera,  argentina, que trabalhava com ele na missão da ONU no Iraque. A imprensa foi discreta, mas todo mundo sabia que já moravam juntos em Genebra quando ele aceitou o novo cargo. De qualquer modo, namoravam sério há três anos. Carolina já tinha até vindo ao Rio conhecer a família dele. Aos amigos, ele se dizia apaixonado como nunca o fora. O namorado ainda era meio secreto, pois Sérgio estava em processo litigioso de divórcio com Annie, uma francesa. Até entendo a imprensa não ter falado mais sobre Carolina. Se o namoro era secreto, era porque tanto ele quanto ela não queriam vê-lo na CNN.

Por outro lado, só se falou na ex-mulher. Que o avião da FAB iria buscar a ex-mulher e os filhos na França. Que ele seria enterrado perto da cidade da ex-mulher. Que o presidente deu os pêsames à ex-mulher. Afinal, é mulher ou é ex-mulher? Quer dizer que o homem se separa dela, muda de continente, arranja outra, vive e trabalha com a outra por três anos e aí, basta morrer, pro infeliz ser entregue de bandeja (ou melhor, de caixão) de volta pras garras da ex? Morto, realmente, não manda nada.

Ex é ex. Se eu quisesse a meu ex decidindo onde eu seria enterrada ou recebendo pêsames do presidente caso eu morresse, eu não teria me separado dele. Se me separei, é porque ele não tem mais nada a ver com a minha vida – ou com a minha morte. Acabou. Não dá mais pitaco.

Fatos falam mais que palavras. Quem se calou durante anos sobre a eterna infidelidade dele foi a Annie. Quem nunca o acompanhou nas viagens de trabalho foi a Annie. Quem preferiu o conforto das montanhas suíças ao invés de Sarajevo, Timor Leste e Bagdá foi a Annie. Quem afastou os filhos da companhia paterna foi a Annie. Quem arriscou o pescoço nos lugares mais perigosos do mundo foi a Carolina. Quem deu um ultimato e pôs o Sergio na linha foi a Carolina. Quem escalou os escombros e puxou o entulho com as mãos para salvar o Sérgio foi a Carolina. Quem reaproximou o Sergio do Brasil e da família foi a Carolina. As últimas palavras do Sérgio foram “Carol, meu amor, minha mulher“. E adivinha quem foi escoltada até um avião na marra e não pode estar presente no velório e enterro do finado? A Carolina. 

Vai ver a Annie é uma pessoa maravilhosa, mas não consigo evitar de imaginá-la pensando: “Quer dizer que você achou que ia me largar assim e ficar com aquela argentinazinha, né? Pois vai ficar é aqui, do meu ladinho, aos meus pés, pra sempre, pra você aprender quem é que manda.”

Imagino que essas coisas sejam regidas por mil protocolos. Em caso de morte, o presidente dá os pêsames à viúva. Não importa se eram separados. Como não houve divórcio, a esposa legal era Annie, a viúva é ela. Mas essa é uma interpretação muito anos cinquenta dos relacionamentos humanos. Se o homem se separou de uma e viveu por três anos com outra, então a esposa de fato é a outra. Dane-se o papelzinho. Não era uma união estável? Faltando esposa (mulher separada não é esposa), que a próxima na linha de sucessão fosse pelo menos sua mãe, ou sua irmã, ou alguma prima por quem ele tivesse tesão na adolescência, ou até mesmo aquela babá, de 90 anos, que estava chorando no velório. Qualquer uma, menos a ex. Quem tem que receber as condolências do Kofi Annan é a Carolina. Quem deveria decidir onde ele seria enterrado é a Carolina. Se esse fosse um mundo que desse mais valor aos sentimentos e à verdade do que às aparências e burocracias, Carolina Larriera é quem receberia a bandeira brasileira dobrada.

Eu só sei que entregar o corpo de um homem à sua ex-mulher é uma puta sacanagem. Mas sei que é a vida. E que dela não vou escapar.

(adaptado do artigo “Brigando por Carniça“)

%d blogueiros gostam disto: