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Da leoa que há em mim


Filho, eu sou doce e delicada. Mas que ninguém se atreva a te fazer mal, a te ameaçar de coisa alguma. Eis a pena. http://www.youtube.com/watch?v=JdU_naNLt0Q

Tristeza da menina


Só ela para demonstrar o que vai dentro de mim. Só ela. http://www.youtube.com/watch?v=LGSGCmuJuKA

Boa noite, vó


 

“Você é uma velha tão bonita. Eu gosto tanto de você…”

Minha avó adorava contar essa história, do dia em que a olhei nos olhos, peguei nas suas bochechas moles e acariciei seu cabelo branco e profetizei essa frase. Eu devia ter a sua idade, filho, e ela foi a minha primeira paixão.

Eu tenho tantas histórias para contar sobre ela, filho, e algumas já escrevi aqui Mas o meu coração está tão cheio de tristeza, saudade que me contenho apenas com algumas poucas palavras. Posso só te contar como eu soube que ela havia voltado à casa do nosso Pai. Eram quatro da tarde, eu estava a caminho da sua escola, próxima ao mercado central, o local onde minha avó trabalhou a vida inteira e onde construiu sua existência . Sempre que vejo um sabiá, eu penso no seu bisavô, e naquele dia ele quase pousou na janela do carro – e não estava sozinho. Estava acompanhado de um curruíra. E veio uma brisa suave, quase perfumada de manjericão, o manjericão que ela vendia tão bem. E aí eu soube, antes que o telefone tocasse. 

Não escapo de nada, filho. Não porque sou corajosa, mas porque certas coisas são necessárias, e a gente não pode fugir a elas. Foi nesse espírito que vesti minha avó, beijando cada parte do seu corpinho tão magro e judiado pelo tempo. É com esse espírito que amanhã vou buscar as cinzas dela, para depositar no lugar que ela mais amava  olhar no Brasil. Sozinha, só eu e ela, como ela mais gostava de estar.

Antes, dava para enganá-la, mentir que estava bem quando a tristeza invadia minha alma, que estava bem de dinheiro quando não tinha nem um centavo na carteira. Hoje ela vê tudo sobre mim, e não dá para fingir. É hora de dar um rumo bonito e honesto à minha vida, para que ela possa se orgulhar de mim. Eu me orgulho tanto dela, filho. E tenho saudade. Tanta que vou terminar de escrever, porque as lágrimas invadem o teclado.

Até um dia, vó. Cada dia aqui é um dia a menos para te encontrar. 

Até Imagemum 

 


Esse filme é sensacional, filho. Fala de uma moça que não trabalha naquilo que gosta, estuda balé e acha que é “tarde demais” para vislumbrar algo além. Graças ao seu amigo, ela descobre a história de Ismahan, uma grande bailarina egípcia, vai atrás da sua mentora e se redescobre como mulher e dançarina. Sobre a belly dance, eu já falei aqui; mas é muito curioso ver como a gente pode ser talhado para algo. A dança do ventre, eu sei que sim. E um dia você vai ver, de verdade.

Ponto fora da curva


Gostaria de explicar uma coisa, filho. Homens e mulheres são iguais em sentimentos. O que ocorre é que ensinam aos homens, quando eles ainda são meninos, que eles devem cultivar o egoísmo, as atitudes irrascíveis, aquele eterno rancor que não os deixa confiar em ninguém. Tudo isso para que eles não sofram, na infância e na fase adulta. É por isso que eles tiram sarro das meninas na escola, chamando de ridícula aquela que é linda e encantadora, só para disfarçar o fato de que ela o ignora por completo.

As moças têm sua parcela de culpa: as mais imbecis preferem a companhia dos meninos bonitos e populares, se esquecendo de que os meninos estudiosos e humildes é que serão os bons companheiros de amanhã. E vocês se defendem como podem: fingindo que não sofrem, e ao conquistar o território desejado, passam a ignorá-lo, quando não trai-lo, no desejo da vingança pelo choro contido de anos atrás. O mecanismo é esse, filho. Eu só posso indicar a você o caminho. Quem o construirá, será você. Eu não sou mais sábia que o resto do mundo. Eu apenas sei amar. Só isso. Eu também tenho cicatrizes, mas eu não desisto nunca. Uma hora, vai dar certo. Desejo a mesma alegria para você.

Na bicicleta


Faz trinta anos, filho. A minha mãe me arrumou com um vestido florido e me levou ao cinema. Foi o primeiro filme, e foi o decisivo. Existiram outros, mas igual àquele, nunca mais. Aqueles olhos azuis tão doces, aquela música, a cena da bicicleta voadora. Por muitos outros filmes Spielberg continua sendo meu diretor favorito, mas esse é o filme que me define, filho. E não estou nem aí se isso é piegas. Mas isso não é o mais importante. O mais importante é o que eu vou te contar.

Toda relação de afeto decisiva é assim, filho. O primeiro encontro é arrebatador, quase sempre assustador. Os momentos alegres, as descobertas engraçadas. Depois vem a necessidade de partir, o choro pela separação, a despedida que arrebenta o coração. O pedido para ficar, que não pode ser atendido. E por fim, o abraço, o beijo, a promessa de que a pessoa eternamente morará na nossa alma. É assim, filho. Tem sorriso, lágrima, esperança. E isso não é ficção, filho – é a vida. Vai aprendendo.


Isso não é um testamento, filho. Esse eu já tenho, está escondido no armário. Essas não são as minhas últimas vontades – são as minhas palavras mais sinceras, as coisas mais profundas vindas de mim. Sim, filho, eu sou profunda, eu sou densa, eu sou intensa, essa sou eu e não sei ser diferente. Eu penso diferente do resto do mundo, e não há nada de errado nisso. Mas nem sempre é a opinião universal. Como uma violeta escondida, eu me fecho em copas – e o único jeito de não enlouquecer nessa solitária é escrever. Foi o jeito que encontrei para que você não me perdesse, que eu não me perdesse.

A palavra é vida, filho. É com ela que mostro o melhor de mim. Para mim, ela vale muito, ainda que tentem desmerecê-la. Eu sei que faço isso bem. Então, se puder, se quiser, se precisar, eu estarei sempre aqui. Foi o jeito que consegui me eternizar para você.

 

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